quarta-feira, 20 de julho de 2011

O GATO RICO E O CÃO POBRE

                                             O  GATO  RICO  E  CÃO  POBRE



   O gato rico resolveu dar uma escapadinha da mansão onde morava e dar umas voltas pela cidade. Ele morria de vontade de andar pelas ruas como um gato comum, mas sua dona não deixava. Ele não era um gato qualquer. Um dia, ela se descuidou e ele fugiu. Estava cansado de viver preso. Já na rua, ele viu um cão muito magro, sujo e triste que, admirado, olhava para sua casa. Desconfiado, o gato aproximou-se e perguntou :  
- Sr. cão, o que faz aí, olhando com tanta curiosidade para minha casa?
O cão se voltou para ele e viu como era gordo e tinha o pelo brilhoso. Dava pra ver que era muito bem tratado. Num  tom de inveja, exclamou :
- Ah! Então você mora nessa casa?! Puxa! Que sorte! Pela sua aparência dá pra ver que vive no luxo. Garanto que só come filé e ainda tem direito a sobremesa. - Num tom de reprovação : mas, o que você faz aqui na rua? Um gato da sua estirpe não anda solto por aí! Por acaso está fugindo? Sua dona não vai gostar de saber disso!
O Outro se irritou :
- Até você! Que saco! Já não chega a patroa que vive me vigiando?! Uma escapadinha que dou vem um cão vira lata me censurar!? Essa vida de gato rico é muito chata, isso sim.
- Como, chata? !  Você tem tudo que quer e ainda reclama? E eu que vivo na rua, jogado, o que digo? Você é um mal agradecido, isso sim. Não sabe o que é viver na rua. A gente dorme ao relento, na chuva e quando procura abrigo em uma porta, o dono bota a gente pra  correr a paulada. Na rua, um chuta de lá, outro chuta de cá, uma pedrada aqui outra acolá. Comida, a gente tem que catar no lixo e ainda apanha porque está fuçando o lixo das pessoas. A gente pega rabuje, sarna, pulga e outras coisas mais. É dureza, meu caro.
- Mas, pelo menos você é livre. Faz o que quer e vai aonde quer. Garanto que conhece toda a cidade. Eu, não. Vivo preso dentro dessa casa sem direito a dar uma voltinha sequer. Não conheço ninguém e não tenho um só amigo. Nem namorar eu posso porque sou castrado. Garanto que você tem namorada.
- Bom, nessa parte concordo com você. Mas, pra que se deixou castrar? Se fosse comigo não deixava.
- Queria ver o que você ía fazer depois que lhe amarrassem todo!
O cão pensou, pensou e resolveu propor um negócio:
- É, sr gato, pelo visto nenhum de nós dois está satisfeito com a vida que tem. Vamos fazer um negócio? Vamos trocar de lugar? Eu viro gato de luxo e você, cão de rua. O que acha?
O outro pensou, pensou e chegou à conclusão que poderia ser divertido. Aceitou. E assim fizeram a troca. Nos primeiros dias ambos estavam eufóricos com essa aventura  e queriam explorar ao máximo seu mundo novo. O gato, agora cão, tratou logo de conhecer toda cidade. O cão, agora gato,  queria comer o tempo todo, tudo do bom e do melhor. Como tudo novo é novidade, no início era só alegria.  Porém,não demorou e começaram os problemas. Para o cão o primeiro deles foi ter que tomar banho todos os dias. Depois, tinha que ficar o dia todo deitado no sofá, sem nada pra fazer. Os dias foram passando e o tédio começou a crescer. Saudade dos amigos, das namoradas e da liberdade. A vida começou a ficar chata, sem graça. Um dia, ele descobriu que queriam castrá-lo. Foi a gota d'agua. Saiu desesperado pra rua à procura do amigo. Queria voltar pra seu lugar.
Por seu lado, o gato também não ía nada bem. Não aguentava mais dormir ao relento e enfrentar todos os problemas da rua. O cão tinha razão, não era fácil. Para ele era ainda pior porque não tinha experiência de vida na rua e ficava mercê dos outros. Tinha que se contentar com seus restos. Os chutes e ponta-pés eram constantes. Como sentia saudades de sua vida de antes. A gota d'agua para ele foi num dia em que levou uma bela sova de uma cadelinha muito feia e sarnenta. Era muita humilhação. Desesperado, foi procurar o amigo para desfazer a troca. Quando se encontraram, o cão não conteve a surpresa:
- Nossa! Como você está acabado! Já vi que não se deu bem. Está pior do que eu esperava.
- É. E pelo visto, você se deu muito bem, não foi? Vamos desfazer esse negócio. Quero meu lugar de volta.
Fingindo desinteresse, o outro respondeu:
- Não tenho do que me queixar. Eu posso até desfazer o trato, mas você tem que me prometer que todo dia vai me trazer um pouco da sua comida. Não quero continuar comendo resto de lixo.
- Você é muito abusado! - como tinha pressa de voltar, apressou-se : tá bom, eu prometo. Vamos logo com isso. Minha dona deve estar morrendo de saudades de mim.
Assim, cada um voltou a ser o que era. O cão, com sua malandragem de rua, saiu no lucro.
MORAL DA HISTÓRIA  :  ninguém está satisfeito com o que tem. Fácil é ver, julgar, condenar ou até desejar a vida  do outro. Difícil é se colocar no lugar dele.



                                                                                      Zeno  B.  Baronni.



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