Às vezes eu paro e fico observando a movimentação das pessoas nas ruas. È um vai e vem sem fim de pedestres que não andam, correm e se atropelam . Movidos pela pressa, sempre atrasadas por conta do caos no trânsito e pela deficiência do transporte público, eles precisam chegar a algum lugar. Cada minuto é precioso . Cada uma dessas pessoas tem um destino e uma história de vida. Fico me perguntando o que se passa na cabeça delas. Suas histórias por certo dariam milhões de livros, cada um mais rico que o outro. Quanta alegria, quanta tristeza, quanta esperança e quanta frustração elas carregam conssigo. Quantas vitórias! Quantas derrotas! Mas elas não podem se dar ao luxo de parar pra pensar em suas desventuras, não. Há muito com que se preocupar e sobreviver é preciso, a qualquer custo. Muitas se matam no trabalho para conseguir tal façanha. O que move e mantém essa gente de pé é a fé, a esperança. São Paulo é a cidade da maratona diária, onde se corre contra o tempo e o troféu é se conseguir fechar o dia com a sensação do dever cumprido. A cada dia essas pessoas têm menos tempo pra tudo, principalmente para si mesmas e suas famílias. Saem de casa cada vez mais cedo e chegam cada vez mais tarde. Esperar um gesto de solidariedade nas ruas, é tarefa praticamente impossível. Algumas até tentam ajudar alguém que esteja em apuros, mas não há tempo a perder. Há um trabalho à sua espera, do qual depende seu sustento e um horário a ser cumprido. O chefe não perdoa atrasos. E depois, às vezes se trata de alguém querendo dar um golpe, o que é muito comum e isso faz com que ninguém confie em ninguém. Quem não está indo para o trabalho tem um outro compromisso importante que não pode ser deixado de lado. Para chegar a seu destino, a maioria pega três ou quatro conduções e para complicar ainda mais, há a grande deficiência do transporte público que presta um serviço da pior qualidade. Chega a ser desumano. De tão apressadas, às vezes elas nem se dão conta do que acontece ao seu redor . Nem sequer percebem quando são assaltadas. É cada um por si e Deus por muito poucos. O estresse é visível em seus rostos e atitudes. A tolerância vai para o espaço em muito pouco tempo e por coisas que poderiam ser relevadas em pessoas normais. As brigas, as agressões físicas e morais são uma constante, principalmente nos horários de pico e nos locais superlotados como, trens, paradas de ônibus e metrô. É a luta por um espaço, como se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar. É o rítimo da cidade que está cada vez mais acelerado e quem não entra nele, não consegue se sobressair. O pior é que, a coisa se torna tão comum, tão natural que ninguém mais se surpreende. Todos esquecem que têm o mesmo problema em comum e que estão no mesmo barco. Movidas pelo instinto de competitividade, acabam perdendo o respeito umas pelas outras e até por si mesmas. Mas a culpa não é delas e, sim, do estilo de vida que são obrigadas a levar . Não há indivíduo que não acabe se desestruturando. Aos poucos, sem perceberem, elas estão perdendo a essência do ser humano e se tornando selvagens. O bom senso, o discernimento, a solidariedade e outros sentimentos nobres estão perdendo espaço para o individualismo absoluto. É o salve-se quem puder. O homem totalmente ignorante e egoísta é pior que um bicho. Pelo menos esse age por instinto e o outro, por maldade pura. A coisa chegou a tal ponto que, às vezes uma pessoa tenta ser gentil com outra e leva uma patada de troco. Diante de tudo isso fico me perguntando o que será de nós num futuro próximo, em uma sociedade que cresce a passos largos, cada dia mais competitiva e irracional. Os valores humanos estão sendo esquecidos rapida e significativamente. Os pais são obrigados, desde muito cedo, a entregarem seus filhos aos cuidados de estranhos, a influências diversas e às vezes maléficas à sua formação. O fato é que a família está esfacelada, desestruturada e o resultado é essa juventude que ora vemos : revoltada, carente e embarcando cedo demais nas drogas e no sexo. Esses jovens são o futuro da nação. Vivemos em uma cidade onde o homem vale muito pouco, apenas o que produz e enquanto produz. A vida, vale menos ainda.
Zeno B. Baronni.
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