sexta-feira, 5 de agosto de 2011

NOSSOS SANTOS PECADOS DE CADA DIA

          Já acordamos de mau humor. Nem sequer agradecemos a Deus pela boa noite que tivemos e murmuramos, aborrecidos : mais um dia de trabalho! Que saco! Não aguento mais aquele lugar e aquela gente! Não vejo a hora de me aposentar. - Num esforço levantamos e corremos para um banho apressado. Nem desejamos um bom dia para quem acordou primeiro do que nós para preparar nossa marmita e o café. Não há tempo a perder com bobagens. Quanto ao café, nunca está do nosso gosto e, como sempre, reclamamos. Pegamos a mochila, saímos apressados e atrasados. Na rua escura e fria, outras pessoas também apressadas. Não há tempo para um cumprimento ou uma gentileza. Se há alguém em apuros, ignoramos. Acendemos um cigarro e vamos pitando. Quando o mesmo acaba, jogamos a bituca na rua. Que se dane o tal do meio ambiente. E depois, há o gari que é pago para limpar nossa sujeira. Chegamos ao ponto do ônibus e pra variar, a fila está enorme. Damos um jeito de furá-la e se alguém reclama, ignoramos. O mundo é dos mais espertos. Acendemos outro cigarro e vamos jogando fumaça na cara do próximo mais próximo. Há quem não goste, mas os incomodados que se mudem. Por fim, depois de ma longa espera, o ônibus chega. Na pressa de embarcarmos e pegar um lugar, vamos empurrando quem estiver na nossa frente, alheios às reclamações e xingamentos ou respondendo à altura. E vamos que vamos. Se conseguimos sentar, defendemos nosso lugar  com toda garra. Não abrimos mão dele por nada, mesmo que tenha alguém necessitado para sentar. Quem está nos bancos reservados para esse tipo de usuário, finge dormir . Ai de quem reclamar. Há sempre muitas brigas por conta de lugares. O mais forte sempre vence. Durante a viagem, por conta da superlotação, são comuns os empurrões, pisadas, discussões às vezes até propositais.  Tem gente que adora agitar. Há sempre um folgado com o desodorante vencido bem na cara da gente. Faz parte. Os xingamentos ao motorista e à mãe dele são de praxe. Quando comemos algo ou tomamos refrigerante. jogamos o lixo pela janela.
Assim, entre um solavanco e outro, depois de um longo caminho percorrido, chegamos ao nosso destino. É bom lembrar que até agora não desejamos um bom dia pra ninguém. Entramos na empresa, emburrados e começamos nosso dia de trabalho. Já iniciamos pensando na hora de sair. Estamos sempre xingando os colegas e, principalmente, o chefe. Durante todo o dia é aquela correria e não temos um só gesto de delicadeza com quem quer que seja. Nunca pedimos por favor quando precisamos de ajuda e não agradecemos quando somos atendidos. Se terminamos nossas tarefas primeiro, não ajudamos a ninguém. Cada um que cuide do seu. Porém, quando atrasamos, queremos ajuda. Na hora do almoço mais correria. Come-se depressa,  é hora tardia, mas se o chefe não está de olho, ficamos na mordomia. Geralmente derramamos comida no chão e em cima da mesa, mas não damos a menor importância a isso. A copeira limpa. É paga pra isso. De volta ao trabalho, a história se repete até o final do dia. Por fim, chega a tão espera hora de voltar pra casa. A mesma maratona.Quando chegamos, mal cumprimentamos quem passou o dia nos esperando e pensando em nós. Estamos cansados demais para um agrado. Tomamos banho , jantamos e vamos para a frente da televisão. Não demora muito e adormecemos. No dia seguinte começa tudo de novo. E assim a vida vai passando, sem nenhum acontecimento relevante. Nos habituamos a essa rotina e nunca fizemos nada pra que fosse diferente. Um belo dia chega a tão sonhada aposentadoria. Agora , sim, vamos levar a vida que sempre sonhamos. Ledo engano! Depois de alguns meses em casa, descobrimos que não é bem assim. Logo nos cansamos dessa vida chata, sem graça. A rotina em casa, a falta de novidades e assunto, a saudade do trabalho etc. Os filhos casaram e seguiram seus caminhos. Os netos logo crescem e não querem mais saber de nós, nos acham chatos. Os poucos amigos, por um motivo ou outro começam a sumir. Só nos resta a cerveja e o jogo no bar, mas aí a conversa também não se renova e logo cansamos dela. Então descobrimos , tardiamente, que durante toda vida não fizemos nada por ninguém nem por nós mesmos. Não deu tempo. Nervosos e ansiosos descobrimos que tudo que conseguimos foi acumular doenças, rabugice e solidão. Nem nós mesmos nos suportamos mais. A nossa colheita é farta.


                                                                                              Zeno   Baronni.

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