sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A SAGA DOS BICHOS

         Em uma fazenda, para a alegria dos bichos e principalmente do proprietário, eis que nasceram dois lindos bezerrinhos , gêmeos. Eles eram idênticos. A bicharada ficou contente e a vaca mãe,  toda vaidosa. Mal sabia ela qual seria o destino dos seus lindos e amados filhinhos. Quanto ao proprietário, assim que os viu, disse satisfeito :  vai ser uma linda junta de bois de carro !
Os bezerrinhos , cercados de todo carinho e atenção, muito bem alimentados pelo farto leite de sua amada mãe, cresciam fortes e saudáveis. Para satisfação do feliz fazendeiro, eles logo atingiram o tamanho ideal para começarem a ser treinados para o trabalho. Foi então que um belo dia, para surpresa e  indignação de todos os animais da fazenda, teve início o treinamento dos bichinhos. Mas essa era a única coisa que  podiam fazer, se revoltar. Eram apenas bichos e tinham que obedecer. Ali na fazenda, cada animal tinha uma missão a cumprir: a vaca tinha que produzir leite, a galinha tinha que botar ovos, a porca tinha que dar leitões etc. Era assim enquanto tivessem vida útil, depois... Aqueles dois adolescentes tinham sido destinados ao pior: trabalhar duro para todos, puxando aquele carro carregado durante o dia todo, todos os dias. A vaca mãe estava de coração partido e não se conformava de ver seus queridos filhos serem escolhidos para tão triste e penosa sina. Porém, a única coisa a fazer era  lamentar. 
Os bezerros em questão sofreram muito até aprender o serviço como deveriam , até porque, no início se revoltaram. Mas a lei do homem é sempre mais forte e prevalece. Depois de apanharem muito, acabaram se curvando. Embora o ser humano perca em força física, tem o privilégio de ter consciência e ser solidário. Quando não consegue sozinho, vários deles se unem e dominam o mais selvagem dos selvagens. Usam da covardia mas no final se vangloriam, pois se acham valentes. Assim, nossos amigos foram vencidos e durante muitos anos trabalharam de sol a sol, sem descanso, muitas vezes passando o dia famintos e qualquer vacilo, a chibata cantava. Aquele cantar saudoso que o carro de bois faz quando está carregado, principalmente quando vem subindo uma ladeira, é o lamento , o choro silencioso de quem não pode expressar seus sentimentos através da fala. De quem não pode expressar sua tristeza e revolta por uma vida de servidão, sofrimento e raiva. Só quem já foi obrigado a engolir um choro, a calar a boca quando queria esbravejar,  sufocar injustiças e seguir caminhos que não queria, tudo isso por imposição paterna, sabe do que estou falando. O que seria que esses pobres animais diriam se pudessem falar e se tivessem consciência de sua condição e força física? Seria que o homem os dominaria tão facilmente? Provavelmente, não . Mas, enfim, não têm nem podem e tudo acontece exatamente como o outro planeja e quer.
Assim, os anos vão passando lentamente sem nenhuma alteração na vida dos nossos amigos. Como tudo na vida tem começo, meio e fim, um belo dia o feliz fazendeiro chega à conclusão que eles estão velhos e não servem mais para o trabalho. Estão velhos, cansados, lentos e sem forças. Agora dão mais trabalho do que trabalham . O que fazer então com animais que não produzem mais? Aposentá-los?! Que nada! Então nossos lindos bezerrinhos, que durante toda a vida contribuíram para o progresso daquela fazenda, ajudaram àquele fazendeiro a criar seus filhos e a alimentar os demais bichos da propriedade, agora seguem lentos , cabisbaixos e sem protesto algum rumo ao matadouro. Esse é o quinhão que lhes cabe depois de anos a fio com um colar de madeira no pescoço. Tudo isso acontece sob os olhares aflitos, as lágrimas sentidas e contidas de todos aqueles que indiretametne foram servidos por eles e que agora, impotentes diante das leis humanas. ainda podem pelo menos chorar.



                                                                                           Zeno    Baronni.  

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