quarta-feira, 24 de agosto de 2011

RAINHA DO LAR

     Ainda são quatro horas da manhã e Manu, ainda muito sonolenta, precisa levantar. Seu marido sai cedo para trabalhar e ela tem que preparar o café ,  a mochila e a marmita dele. Quando ele levanta quer tudo pronto e é assim que tem que ser, afinal, ele sustenta a casa e ela tem que cuidar para que ele tenha tudo nas mãos a tempo e a hora. É obrigação dela zelar pelo seu conforto e bem estar.  Coisa que nem sempre acontece conforme o desejado, para desespero dela e irritação dele. Claro que ela se desdobra pra que saia tudo a contento, mas nem sempre é possível. São muitas tarefas a cumprir e ele não percebe que além dele, há a casa, os filhos, o trabalho lá fora e tudo isso exige muito dela. Por mais que ela se esforce, nunca consegue satisfazê-lo e há  sempre uma reclamação a ser feita e um defeito a acrescentar.
Sem uma queixa, ela se levanta e vai até a cozinha, aos tombos. Começa assim o seu dia, todo dia. Ainda está no meio do preparo das coisas e já escuta os gritos dele vindos do banheiro pedindo toalha e cueca. Prontamente ela o atende e volta para a cozinha. Saindo do banheiro, a roupa tem que estar pronta, limpa e passada em cima da cama. Já tomado banho e de roupa trocada, apressado ele toma seu café, reclama que o mesmo está ruim , que sua roupa está mal passada e vai embora sem  sequer dar um beijo de despedida na esposa. Não lhe faz um agrado nem lhe deseja bom dia. Para que essas frescuras? Já estão casados ha mais de dez anos e a fase da bajulação já passou.   Resignada, ela dá continuidade às suas tarefas. Já está acostumada. É hora de acordar as crianças e prepará-las para deixá-las na creche e na escola. Antes, porém, precisa dar-lhes o desjejum. São quatro ao todo.  Duas vão para a creche, onde ficam o dia todo e duas  para a escola , de onde saem ao meio dia e voltam para casa onde ficam sozinhas até o retorno dela do trabalho.  Ainda bem que essas entifdades ficam próximas uma da outra. Ela os leva e de lá já vai direto para o serviço de onde sai às treze horas. É zeladora em uma empresa. Precisa trabalhar fora porque seu marido ganha pouco e o salário dela é importante para ajudar nas despesas. Uma vizinha os busca na escola de os deixa em casa.  Quando ela chega, por volta das 14:00 horas, almoçam.  A sorte é que o lanche da escola ajuda a passar a fome precoce.
No trabalho é aquela correria. Não tem tempo para nada e não pode se dar ao luxo de se sentir cansada. Há sempre alguém gritando por ela. Quando acaba o expediente, vai correndo para casa e quando chega na mesma, sempre encontra uma bagunça maior do que  deixou. Os meninos já reclamam da fome, ela corre pra cozinha , termina o almoço que deixou adiantado na noite anterior e almoçam. É hora de dar uma geral na pia. As crianças vão pra a sala ver televisão. Bendita TV e bendito videogame! Mas nem nessa hora ela tem sossego porque eles sempre brigam; um sempre quer exclusividade.  Quando acaba a geral na pia, é hora de passar roupa. Não pode deixar acumular, mas é inevitável porque nunca dá tempo de fazer tudo antes de  buscar os menores na creche. De volta  à casa, é hora de preparar o jantar. O marido chega faminto e quer tudo pronto. O menor chora pedindo colo, mas o tempo é pouco. Ele tem que se conformar com carícias rápidas. Na sala os maiores brigam por motivos fúteis e é preciso acalmá-los. Se um deles adoece, ela que tem que levá-lo a médico. Reunião de pais e mestres, ela aque tem de participar. O marido nunca tem tempo nem boa vontade. Isso são tarefas de mulher. Quando ele  chega  o jantar ainda não está pronto. Ele reclama da demora e diz que não sabe o que ela faz tanto que nunca consegue cumprir um horário.  Vai jogando mochila, sapatos e roupa pelo meio da casa.  Ela apressa-se enquanto ele toma um banho. Por fim, depois do atraso e de pequenas discussões, jantam. Momento esse que é sempre tumultuado e ele acaba pegando seu prato e indo para a frente da televisão.  Diz que ela está sempre atrasada com as coisas e só faz tudo mal feito. Terminado o jantar, ele logo adormece, enquanto ela arruma a cozinha e adianta o almoço do dia seguinte.  Pouco tempo depois ela  já escuta os roncos dele. Quando termina já é quase meia noite. Está morta de cansada. Toma um banho, leva todo mundo pra suas camas e deita. Seu cansaço mental é tanto que ela não consegue dormir direito e há sempre um pequeno chorando por algum motivo. Ela olha para o lado e vê o marido mergulhado no sono dos justos. Levanta aos otombos e vai acudir o pequeno. No dia seguinte, começa tudo de novo. Final de semana é ainda pior porque está todo mundo em casa. Sábado é dia de faxina. Ainda bem que o marido passa a maior parte do dia no bar. Ele não aguenta ficar em casa escutando choro de criança e as reclamações dela. O domingo é dia de lavar roupa. Para ele é dia de jogo e cerveja com os amigos.
Assim é a rotina de Manu, dia após dia. O tempo vai passando , os filhos vão crescendo , ficando cada vez mais exigentes e ela cada vez mais dedicada à família. Nunca tem um minuto para si mesma. O marido ainda reclama que ela está acabada, desleixada. Ela não lembra o ano em que foi a um cinema com ele ou a um passeio qualquer. Os momentos de intimidade entre eles são raros e mais dele do que de ambos. Acabou o encanto. Não gosta nem de se olhar no espelho, pois percebe que o marido está certo, que envelheceu 20 anos em cinco. Pega o álbum de casamento , fica olhando e lembrando. Como era bonita! Estava tão feliz! Tinha tantos planos para uma vida a dois. Achava que ia ser um mar de rosas. Sabia que teriam dificuldades, mas não imaginava que fossem tantas. Amava-o tanto! Ele era tão bonito, tão carinhoso! Todos os dias lhe trazia um presentinho. Como era bom! Agora sua realidade é outra. Os peitos caídos, pernas cheias de varizes, barriga quebrada etc. Sente-se frustrada, cansada, infeliz, desvalorizada, cobrada, criticada e rejeitada. Havia esquecido de si mesma para viver em função daquele que há muito a esquecera. Teria valido a pena? Para ela não havia Natal, Ano Novo, dia da mães, Páscoa, aniversário, nada. Todos os dias eram iguais, de domingo a sábado. Uma lágrima dolorida corre pelo seu rosto cansado e enrugado precocemente.  Pergunta-se por que tinha deixado as coisas chegarem àquele ponto. Agora é tarde para tentar mudar e o jeito é se conformar com a situação. Nesse momento escuta uma voz que grita por ela exigindo alguma coisa. Enxuga a lágrima com as costas da mão e vai  atender. Não tem outra escolha. Os hábitos de anos tornam-se eternos.
Essa é a saga de muitas mulheres brasileiras que se deixam escravizar, muitas vezes sem perceberem, seja por necessidade, medo de enfrentar a vida sozinhas ou pura servidão. Vale lembrar que há quem goste e até se sinta feliz em ser serviçal. Só fico me perguntando até que ponto é válido você desistir de você mesmo, se anular completamente e viver em função dos outros?


                                                                                                    Zeno    Baronni Bezerra.

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